Trecho do livro: Lágrimas de Sangue de Tássia Vitória
"Ela subiu pelos montes verdes que cobriam o resto de mundo ainda desconhecido pelos seus olhos. Olhou para o céu e pediu coragem. Estufou o peito e seguiu em direção Norte, para um fim desconhecido.
Cansada de ficar no Sul, onde o clima e as pessoas parecem estar sempre na mesma estação, com tons cinzas nas roupas e poeira nos sapatos, ela segue. Anda pelas árvores, teme os animais, mas os cativa.
Liberta de um padrão sistemático de andar, comer, trabalhar e dormir,
aliás liberta por si mesma. Sem direito a bens, abraços familiares, beijos de despedida, se desprende. Analisa em uma síntese particular; de onde a sociedade que vivi absorveu uma pequena parte do que sou?
Sem respostas, com milhões de dúvidas, não respondidas, dadas como anuladas, sem uma objeção clara nos livros da biblioteca municipal, livrarias e sebos, busca novos livros, novos ares e cheiros.
Antes da partida um bocado de dúvidas a cercara; o que faço aqui? Existem outras cores? Quem além de mim pensa em algo no plural? Só existe o singular? Quanto custa a felicidade?
Mesmo Osho, um de seus mestres filosofais era incapaz de traduzir tamanho questionamento de tudo que ela tinha em mente.
Durante sua travessia pela mata fechada, pega um livro de Martha Medeiros "Cartas Extraviadas", um dos poucos que carregava e lê. Pela enésima vez, mas lê.
Com os pés cansados, um medo incontrolável, sapatos sujos de lama,
e uma mochila maior que ela, chega ao Norte.
Para no início da estrada, vê um grande movimento. Segue pelas ruas é notada pela mochila e seus sapatos sujos, mas não tão notada quanto no Sul. No Norte as pessoas só a olhavam, no Sul olhavam, riam e fofocavam.
Passou por um prédio enorme escrito Biblioteca Municipal; encantou-se, também pelas livrarias e sebos. E mesmo com tanto o que conhecer parou para olhar uma bailarina que dançava um estilo livre na praça do centro. A bailarina se movia como um pássaro, era leve como uma pluma, ia e vinha conforme a música. Uma lágrima caiu de seu rosto. E a bailarina com uma grandeza de espírito parou e apontou a ela o teatro do Norte. Mais que depressa ela corre até o teatro, onde há um grupo de pessoas ensaiando para um apresentação de teatro dança. Ficou parada olhando, olhando, quando um homem, grande, de cima do palco a chama e diz; leia isso e fale com seu coração. Ela lê o texto mas não fala com as palavras ali escritas, traduz com palavras do seu sentimento:
- Largue-me ser mundano, não estou atrelada a teu sangue, não sou tua veia, nem teu coração que não vibra e bate. Quero ser a corda do teu violino, a nota que desconhece e paixão que nunca teve. Outrora foste um homem, hoje conseguiste regredir para um moleque, que ama muitas, todas além de mim!
Ela falou com tamanha eloquência que todos do teatro ficaram parados, um silêncio, uma lágrima no rosto de cada artista.
Ela entrega o papel ao homem grande, ele a segura suavemente pela mão sussurra em seu ouvido; teu lugar é aqui. Cansada, com aquela mochila que carregava a vida toda nas costas ela o abraça, respira fundo e mexe a cabeça sub entendendo um sim.
Vai para um alojamento próximo ao teatro, banha-se nas águas do Norte e por um minuto parte daquilo que pensava não ser capaz, some com água que foge rapidamente pelo ralo. Analisa na sua síntese e vê que esta pronta para expor ao mundo o seu Universo particular."
Tássia Vitória Machado
Cansada de ficar no Sul, onde o clima e as pessoas parecem estar sempre na mesma estação, com tons cinzas nas roupas e poeira nos sapatos, ela segue. Anda pelas árvores, teme os animais, mas os cativa.
Liberta de um padrão sistemático de andar, comer, trabalhar e dormir,
aliás liberta por si mesma. Sem direito a bens, abraços familiares, beijos de despedida, se desprende. Analisa em uma síntese particular; de onde a sociedade que vivi absorveu uma pequena parte do que sou?
Sem respostas, com milhões de dúvidas, não respondidas, dadas como anuladas, sem uma objeção clara nos livros da biblioteca municipal, livrarias e sebos, busca novos livros, novos ares e cheiros.
Antes da partida um bocado de dúvidas a cercara; o que faço aqui? Existem outras cores? Quem além de mim pensa em algo no plural? Só existe o singular? Quanto custa a felicidade?
Mesmo Osho, um de seus mestres filosofais era incapaz de traduzir tamanho questionamento de tudo que ela tinha em mente.
Durante sua travessia pela mata fechada, pega um livro de Martha Medeiros "Cartas Extraviadas", um dos poucos que carregava e lê. Pela enésima vez, mas lê.
Com os pés cansados, um medo incontrolável, sapatos sujos de lama,
e uma mochila maior que ela, chega ao Norte.
Para no início da estrada, vê um grande movimento. Segue pelas ruas é notada pela mochila e seus sapatos sujos, mas não tão notada quanto no Sul. No Norte as pessoas só a olhavam, no Sul olhavam, riam e fofocavam.
Passou por um prédio enorme escrito Biblioteca Municipal; encantou-se, também pelas livrarias e sebos. E mesmo com tanto o que conhecer parou para olhar uma bailarina que dançava um estilo livre na praça do centro. A bailarina se movia como um pássaro, era leve como uma pluma, ia e vinha conforme a música. Uma lágrima caiu de seu rosto. E a bailarina com uma grandeza de espírito parou e apontou a ela o teatro do Norte. Mais que depressa ela corre até o teatro, onde há um grupo de pessoas ensaiando para um apresentação de teatro dança. Ficou parada olhando, olhando, quando um homem, grande, de cima do palco a chama e diz; leia isso e fale com seu coração. Ela lê o texto mas não fala com as palavras ali escritas, traduz com palavras do seu sentimento:
- Largue-me ser mundano, não estou atrelada a teu sangue, não sou tua veia, nem teu coração que não vibra e bate. Quero ser a corda do teu violino, a nota que desconhece e paixão que nunca teve. Outrora foste um homem, hoje conseguiste regredir para um moleque, que ama muitas, todas além de mim!
Ela falou com tamanha eloquência que todos do teatro ficaram parados, um silêncio, uma lágrima no rosto de cada artista.
Ela entrega o papel ao homem grande, ele a segura suavemente pela mão sussurra em seu ouvido; teu lugar é aqui. Cansada, com aquela mochila que carregava a vida toda nas costas ela o abraça, respira fundo e mexe a cabeça sub entendendo um sim.
Vai para um alojamento próximo ao teatro, banha-se nas águas do Norte e por um minuto parte daquilo que pensava não ser capaz, some com água que foge rapidamente pelo ralo. Analisa na sua síntese e vê que esta pronta para expor ao mundo o seu Universo particular."
Tássia Vitória Machado
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