Nossa Dança

Mais um vez,
eu o palco e a arte.
Até então nada de novo,
o frio na barriga que me faz voltar,
a vontade de expressar minha arte para a platéia.
Era essa, só essa, minha preocupação,
até ás dezessete horas, só estava focada nisso.

Reunião, oração, equipe pronta,
vamos entrar em cena!
Um voz me guita da porta do camarim:
-Vamos é tua vez, boa sorte!
Eu e meu vestido vermelho,
gasto e com rendas aplicadas.
Uma mão quente segura a minha,(estranho),
uma mão tão familiar,
tão acostumada a se enlaçar na minha.
Uma coincidência,
o coração começa a palpitar loucamente,
o solo antes do minha apresentação se parecia eterno.
Era um momento estático,
minha mão segurando outra mão,
meus braços gelados e minha pressão nas alturas.

Entrei no palco,
estava tão escuro e me vi abraçada em um corpo,
o dono das mãos familiares,
segurava todo meu corpo,
minha estrutura,
meu ego.
Começa o tango,
levanto minha cabeça,
era ele.
Os olhos ainda eram os mesmo de oito anos atrás.
Esse homem, tão conhecido,
que via quase todos os dias cresceu.
Tomou conta do palco,
me senti pequena,
me senti menina,
me entreguei.

Não olhava, não ligava para a platéia,
nem imaginava quem podia estar lá.
E naquele momento isso não fazia diferença.
Era eu, ele e um tango.
O toque delicado,
os olhos nos olhos,
nosso corpo em plena sintonia.
O momento era mágico,
lembro-me de só dançar,
de girar, de seguir os movimentos dele.
Me perdi, tremi, ele me segurou.

E no ápice do tango,
na pose final,
ele me gira,
me ergue,
vira-me para a platéia,
sinto o coração dele em minha coluna.
Me rendo,
uma valsada,
e na saída do palco,
na coxia escura do teatro,
os olhos verdes dele brilhavam,
eram pontos cadentes de referência.
Mas só eu via.
Ele sussurra:
- Conseguimos, vencemos!
Eu, gelada, pensei:
- Conseguiu, me ganhou mais uma vez.

Tássia Vitória Machado



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