Quilombo 1015 São Leopoldo - Levantamento Histórico e Cultural


Quilombo 1015 Feitoria- Área Indígena
Quilombo 1015 Feitoria- Área Indígena

Por anos, fui abordada por pessoas Indígenas nas ruas, no carro, na porta da minha casa e nos grandes centros das cidades. Não questionava a mim mesma, essa abordagem. Muitas vezes me sentia incomodada, invadida pessoalmente e socialmente pela parada quase que obrigatória de pessoas vendendo ou pedindo. Foram muitas vezes. Quando eu era criança, Índio era um personagem social fictício. Nunca tinha visto, só tinha o conhecimento que escola me passava. Costumava a fazer colares de sementinhas, ou cocares de folhas de revista para comemorar o dia do Índio. Era uma data como qualquer outra, dia das mães, dia das crianças, uma data simbólica, particularmente, como todas as do calendário. Nunca me questionei nem fui questionada sobre a condição indígena. Terminei o Ensino Fundamental e me lembro de ter visitado somente uma vez um grupo Indígena com a Professora Maria Idalina, de Geografia e História na 8º série. Fiz o Curso Normal, vulgo magistério, onde acreditava ter o mínimo de informações necessárias para iniciar minha carreira docente. Escolhi o curso de história, bem na faculdade foi diferente, bibliografia existia na realidade me faltava era interesse no assunto. Comecei a Pós Graduação em Cultura Afro-Brasileira, com 24 anos já estava sabendo muito mais sobre a cultura africana, que a brasileira. Não que eu não tivesse pesquisado a história brasileira e suas generalidades, eu não tinha estudado e nem me interessado pelo principal agente histórico brasileiro; o Índio. Moro perto de um Quilombo por volta de quatro anos, tinha escutado alguns relatos que abordavam a existência de um grupo indígena na região. Mas estava tão focada na questão do negro no contexto brasileiro que nem me interessava outro tipo de espaço a não ser de resistência negra. Percorri por vilas, favelas e quilombos remanescentes de matriz negra. Nunca imaginei que existiria um Quilombo indígena, como forma de resistência. Passava por vários integrantes deste grupo, nas ruas próximas a minha casa, então me dei conta de um grupo étnico (indígena) em um espaço denominado de resistência negra ( quilombo) algo complexo, esquecido e ignorado por mim e pela maioria das pessoas. Uma visita pessoal de uma estudante de jornalismo Larrisa V. Machado me fez ir ao Quilombo 1015 no Alto do Bairro Feitoria São Leopoldo- RS. Foi um encontro tão importante para minha formação étnica quanto ir à África e conhecer cada ponto que possa ter sido percorrido por meus ancestrais. Não me senti em “casa”, me senti no começo do princípio da República Federativa do Brasil. Fui além de minhas raízes, foi ao ponto máximo de minha ancestralidade brasileira. Minha árvore genealógica abriu um leque, minha parte indígena tão miscigenada a minha parte negra e européia. Por anos me referi a África como meu ponto de partida, meu marco inicial, mas negligenciei meu ponto transitório indígena brasileiro. Não posso mais me referir a minha etimologia sem citar que sou de cor negra e indígena. Vi nos olhos de minha afilhada Larissa, uma lágrima ao ser questionada por um Índio a sua nação. Vi nos olhos dela também os olhos do nosso Avô Adelino Machado, filho de Índios na Cidade de Encruzilhada do Sul- RS. Aquele traço abaixo da sua testa semelhante ao meu ,dos Índios entrevistados e a de meu avô já falecido. O tom de pele escuro semelhante a do meu Tio (pai de Larissa) Eduardo Machado. O tom negro no cabelo idêntico ao do meu irmão Guilherme, um baiano com feições totalmente indígena. Fiz todo levantamento histórico, me sentia um pouco confusa quando os Índios se referiam à cultura do Branco, me agrupando à cultura indígena. Na realidade eles sabiam naquele momento muito mais da minha história que eu mesma, sentada com um caderno e uma caneta me colocando a uma posição totalmente diferente a deles. Fui realizar uma coletagem de dados históricos, no final fui coletada por uma parte que existia em mim mesma tão adormecida pelo meu fanatismo em procurar “na rua o que se tem em casa”. Vejo esse ditado ser usado de forma impessoal, quando alguém é traído em um relacionamento de afeto. E foi isso o que fiz por 24 anos de minha vida. Procurei tanto na África o motivo do meu cabelo encaracolado, que esqueci de procurar no Brasil, o porquê dos meus olhos puxados, minha pigmentação de pele. Minha revolta quando as pessoas me falavam que eu não “tinha a cor negra”, tinha cor de Jambo. Sou um pouco negra, indígena, européia e talvez até um pouco asiática. Sou assim, pois sou brasileira. Negra, índia, não se sabe exatamente. Não sou só descendente de pessoas escravizadas, sou descendente também de um povo massacrado, invadido que ainda quer preservar aquilo que era seu, quando foi tomado por naus e europeus no começo do princípio do BRASIL. Fotos e Entrevista: Larissa V. Machado Levantamento Histórico:Tássia Vitória Machado

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