Esquisita, mas normal?
Em pleno século XXI ainda escrevia em seu diário.
Um velho e encapado caderno,
que ela ousava chamar de diário.
Ninguém ainda nesta época tinha esse hábito.
Mas ela se sentia tão bem com ele,
o mundo se tornava seu e as palavras sua amigas.
Realmente era esquisita.
Seus gostos e atitudes eram ecléticas.
Gostava de coisas loucas e absurdas.
Escutava músicas que só fizeram sucesso no passado.
Usava roupas curtas e degotadas em dias de sol.
Cobria todo seu corpo em dias de chuva.
Gostava muito de raios e ventanias,
não dormia na chuva com dó dos desabrigados.
Tinha dois, três, quatros amores,
todos intensos e verdadeiros.
Amava com uma intensidade tão grande,
que quando tinha que deixá-los partir morria um pouco.
Não era fúnebre, mas não desconhecia e negligenciava
a morte.
Não era alegre, mas geralmente estava de bom-humor.
Moldava quem vivia ao seu redor,
com suas palavras e persuasão.
Não era fiel, mas era leal.
Bebia demais, chorava demais,
mas mantinha o equilíbrio como ninguém.
Gostava muito de cores quentes
e demais de cores frias.
Acreditava no amor, mas muito mais na amizade.
Se colocava sempre a disposição.
Era séria, mas dançava, cantava, encenava e escrevia.
Não demostrava seus sentimentos em palavras,
mas nos seus gestos.
Era única,
não tinha irmãos do mesmo pai e mãe.
Era calejada pelas dores da vida, mas não desistia de lutar.
Era forte para os outros e fraca para si mesma.
Era realmente muito esquisita,
tinha um bocado de segredos,
que escrevia todo santo dia num velho caderno encapado,
que ousava chamar de diário.
Tássia Vitória Machado
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